A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quarta-feira (10), a Proposta de Emenda à Constituição (PEC nº 32/15) que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos no Brasil.
A PEC recebeu 44 votos favoráveis e 18 contrários. O
aval da comissão representa o primeiro passo da tramitação da proposta, que
agora seguirá para análise de uma comissão especial antes de ser votada em dois
turnos, no Plenário da Casa.
A aprovação do parecer favorável do relator, deputado
Coronel Assis (PL-MT), ocorreu após mais de duas horas de intenso debate. Para
o relator, a medida é juridicamente viável, não viola as chamadas cláusulas
pétreas da Constituição Federal, nem tratados internacionais.
A conclusão de Assis foi rebatida por deputados contrários à
iniciativa, que argumentam que os direitos da infância e da juventude são
cláusulas pétreas que não podem ser alteradas salvo com uma nova constituinte.
“Esta é uma cláusula pétrea da Constituição. Ou seja, só
pode ser modificada com uma nova Constituição. E não estamos aqui falando de
uma nova Constituição, mas sim de alterar a atual, modificando uma cláusula que
não pode ser alterada”, alegou o deputado Tadeu Veneri (PT-PR), para quem a
PEC, se aprovada no Congresso Nacional, será barrada no STF.
“Não podemos iludir a população de que isto vai prosperar.
Não vai. Vai chegar no STF e vai parar. E teremos feito um grande debate apenas
com cunho eleitoral”, acrescentou Veneri.
Resposta populista
A deputada Sâmia Bonfim (PSOL-SP) endossou a tese de que a
redução da maioridade penal é uma resposta populista, eleitoreira e que não
resolverá os graves problemas da segurança pública.
“O pressuposto é que, com a entrada destes jovens no sistema
penitenciário, e não mais no sistema socioeducativo, teremos uma punição mais
severa e à altura das infrações que eles cometeram. Isto é uma mentira. O
índice de reentrada no sistema socioeducativo é de 23%. No sistema prisional é
de 42%”, afirmou Sâmia.
A parlamentar argumentou que, segundo dados oficiais, apenas
0,5% das infrações cometidas por adolescentes são consideradas crimes
gravíssimos.
“Estamos propondo alterar todo o tratamento dado aos
adolescentes [em geral] por causa de 0,5% […] quando este Congresso Nacional
deveria estar se dedicando a identificar onde estamos falhando para que haja
tantos jovens cometendo crimes em vez de estarem sentados nos bancos
escolares”, ponderou Sâmia.
Referendo
Defensor da proposta, o deputado Mendonça Filho argumentou
que o correto seria submeter o tema a um referendo popular.
“Ninguém aguenta mais a violência no Brasil. Temos 44 mil
homicídios por ano. Vivemos um padrão de guerra civil e fazemos de conta que
esta realidade não existe”, comentou Filho, atribuindo a insegurança a “leis
frouxas” e à “impunidade” que, segundo ele, facilita a ação do crime
organizado.
Ele admitiu que a redução da maioridade penal para 16 anos
não vai resolver o problema da violência. Mas defendeu que, em conjunto com
outros mecanismos legais, vai contribuir para o combate ao crime organizado.
“Cerca de 25% da população brasileira vive hoje sob a
influência direta de milícias e de organizações criminosas que, inclusive,
aliciam menores de 18 anos para praticar crimes porque, para elas, o custo de
fazer isto é barato”, disse.
Segurança pública
O deputado Rodrigo de Castro (União-MG) também classificou a
aprovação da PEC como um “claro sinal” contra a impunidade, mas lamentou que a
discussão, que se arrasta há anos no Congresso Nacional, tenha se transformado
em um debate sobre aspectos ideológicos que nada têm a ver com a segurança
pública. “Me constrange ver este debate se tornar um debate de ideologias”.
Para Otoni de Paula (PSD-RJ), é um erro o Congresso Nacional
discutir um projeto tão importante e polêmico como a redução da maioridade
penal às vésperas de uma eleição.
“Por que não aprovamos a redução da maioridade penal durante
os quatro anos do governo Bolsonaro já que tínhamos base para isso? Da mesma
forma como não transformamos as facções criminosas em grupos terroristas.
Tivemos quatro anos e não fizemos isto”, argumentou.
Ele afirmou que há risco de que, com a redução da maioridade
penal, os criminosos passem a aliciar crianças e adolescentes ainda mais novos.
“Como ficarão os adolescentes de 15 anos e 11 meses que cometeram crimes hediondos? Amanhã, vamos debater a redução para 14 anos? Depois para 12? Porque este problema é estrutural. E a partir da redução da maioridade penal para 16 anos, o tráfico vai recrutar meninos abaixo de 16 anos”, concluiu de Paula.
